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Aug 7, 2019 7:00 PM ET

Pe. Leo Pessini, que faleceu recentemente, é homenageado pelo amigo e fundador da Sobramfa


iCrowd Newswire - Aug 7, 2019

No dia 24 de julho, a Ordem dos Ministros de Enfermos, os Camilianos, perdeu o Superior Geral em exercício. A Bioética brasileira perdeu uma das figuras mais proeminentes das últimas décadas. E Pablo González Blasco, fundador da Sobramfa, perdeu um grande amigo. Uma amizade de quase 40 anos, que teve início na década de 80, quando o padre Leocir Pessini iniciava sua caminhada como capelão do Hospital das Clínicas enquanto Blasco era um médico recém-formado. Entre eles, os recém-graduados, se chamavam de R1, em referência ao primeiro ano de residência médica, e P1, porque Pessini acabava de se ordenar sacerdote.

Jovens, se encontravam com frequência nos corredores do HC, na capela do décimo primeiro andar – que, por sinal, tinha pinturas de Fúlvio Pennacchi, que coincidentemente acabaria sendo paciente de Blasco anos depois, até seus últimos momentos de vida. “Vários colegas da minha turma ainda se lembram dos ‘pedidos de consulta’ que fazíamos ao Pe. Leo para atender espiritualmente nossos pacientes ou conceder a Unção dos Enfermos. Junto com o entusiasmo por exercer a profissão, o hábito de chamar o capelão foi uma ‘moda que pegou’ entre os jovens médicos. Muitas histórias emblemáticas acodem à memória. O paciente que melhorou depois da Unção e que alguém sugeriu ministrar a cada 12 horas… Ou aquele colega que professava um ateísmo formal e mandou chamar o capelão de madrugada, porque o paciente assim o desejava. Diante da expressão de surpresa da enfermeira, o médico explicou: ‘Sou ateu, sim, mas o paciente não tem nada a ver com isso’.”

Poucos anos depois, padre Leo ficou conhecido em todo o Brasil. O Presidente de República recém-eleito, Tancredo Neves, foi trasladado ao Hospital das Clínicas, onde faleceu semanas depois. Os telejornais acompanharam o longo desfecho da doença, as declarações dos médicos, as taxas diárias de leucócitos e, naturalmente, a figura daquele jovem capelão que atendia o Presidente e a família. Anos depois, durante um almoço, Leo comentou com Pablo: “Eu tinha pouco mais de 30 anos e a situação caiu em minhas mãos. Fui várias vezes tomar lanche com D. Paulo Evaristo, que foi quem me ordenou sacerdote, para me aconselhar, pois a pressão da mídia era grande. Ele me disse: ‘Leo, limite-se ao âmbito espiritual, não entre nas fofocas’. Foi ótimo, porque teve até jornalista estrangeiro que me ofereceu bastante dinheiro para tirar umas fotos do Tancredo. Eu respondi: ‘Sou o capelão, não o fotógrafo’. E tenho silêncio de ofício”. Na opinião do amigo médico, foi justamente nesse episódio, na prolongada agonia de Tancredo, e nos desafios éticos, que o germe do gosto pela Bioética começou a deitar raízes no coração de Leocir Pessini.

González conta mais: “O tempo passou, nossos caminhos nos distanciaram, mas vez por outra nos encontrávamos para renovar nossos sonhos de fazer uma medicina melhor, de injetar humanismo nos cuidados da saúde – que parecia enveredar por caminhos de esquecimento do principal protagonista: o paciente. Certa vez nos encontramos no aeroporto de São Paulo. Pe. Leo me disse: ‘Estou indo a Brasília. Vamos abrir uma faculdade de medicina’. Com olhar de surpresa, comentei algo que os acadêmicos e as entidades representadoras de classe costumam sublinhar repetidamente: ‘Estão abrindo faculdades de medicina no Brasil sem qualquer critério’. Ele concordou, mas acrescentou: ‘Sim, mas se alguém tem o direito de abrir uma somos nós, os Camilianos, que temos uma história de 80 anos de cuidados na saúde no Brasil e mais de 40 hospitais funcionando. Não é um capricho, mas um dever’. Argumento definitivo, audaz e até profético. Na época dessa conversa, as escolas de medicina no Brasil eram pouco mais de 100; hoje chegamos a 350 e, certamente, a maioria não tem a competência educacional que o Pe. Leo vislumbrava, à frente já da Instituição Camiliana”.

As novas e muitas obrigações afastaram Pe. Leo do cenário acadêmico, embora estivesse sempre atento às oportunidades de melhora. Certa vez, Leo Pessini e Pablo González Blasco se encontraram num congresso de Bioética no México. Estavam lado a lado quando uma professora da Sobramfa apresentou os resultados iniciais da sua pesquisa sobre a erosão da empatia nos estudantes de medicina. Nesse momento, Leo sussurrou um comentário ao pé do ouvido: “Ela está dizendo que os estudantes saem pior do que entram. É isso mesmo, Pablo?” O médico respondeu positivamente com a cabeça. “Isso me interessa muito. Quero saber se na nossa faculdade é assim”, disse Pe. Leo – que convidou a professora para completar sua pesquisa na Instituição Camiliana e participou da banca quando a tese doutoral foi apresentada.

Escritor prolífico, Pe. Leo deixou inúmeros livros e estudos que revelam sua preocupação com a Bioética. “Cada vez que nos encontrávamos, me presenteava com suas últimas obras. Sempre com dedicatórias que transmitiam otimismo, empurravam a ser melhor. Com estima, dedicava-me as obras: ‘Ao amigo das sendas da bioética, no serviço da vida cuidando samaritanamente dos doentes e ensinando as pessoas a cuidarem bem da saúde, buscando certezas num mundo de incertezas, sempre juntos no desafio da vida’. O último livro entregou-me três semanas antes do seu falecimento, quando o visitei pela última vez: ‘São reflexões dirigidas à tribo interna, aos Camilianos. Assim, caso me aconteça alguma coisa, deixo isto a modo de testamento’”, revela Blasco.

Por fim, Blasco narrou uma última passagem emblemática. “Numa viagem em que passei por Roma, estivemos juntos em Assis. Foi mesmo uma viagem inesquecível, onde fez questão de mostrar-me todos os recantos e raízes da espiritualidade franciscana. No mosteiro de S. Damião, onde Francisco escutou o apelo do crucifixo para reedificar a sua Igreja, Leo comprou e me deu de presente uma reprodução do Cântico das Criaturas. ‘Para ajudar na tua serenidade’, comentou. Volto agora a reler aquele pergaminho emoldurado e saltam essas palavras que, certamente, são um bom resumo da vida de Leo Pessini: ‘Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor/ e suportam enfermidades e tribulações/ Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, pois por ti, Altíssimo, serão coroados’. Essa era a Bioética na qual militava apaixonadamente Leo Pessini. A bioética da amizade”.

Website: http://www.sobramfa.com.br






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